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DEFESA NO “REFLEXO”
Gerard
Mauricio Martins Fonseca
Abordagens
conceituais básicas acerca da ação
defensiva do goleiro de futsal.
O
futebol nas suas mais variadas formas de execução,
futsal, futebol de areia, futebol sete e futebol
de campo, cada vez mais necessita de jogadores
versáteis, que possam atuar nas mais diversas
posições e situações de jogo. Neste universo,
distingue-se o goleiro, pois é o único jogador
com características próprias, cuja função
difere dos demais integrantes da equipe.
Cada
vez mais o goleiro se torna uma posição
especializada dentro do contexto do jogo de
futsal. A função básica deste jogador é
defender o seu gol, utilizando-se para isto de
todas as possibilidades técnicas, táticas, físicas
e psíquicas, que sejam permitidas pela regra do
jogo. Podemos considerar que uma das qualidades
fundamentais para o desempenho adequado da função
de goleiro dentro do jogo de futsal, é o tempo de
reação. Todavia, freqüentemente ocorre uma
“confusão” acerca da participação na ação
do goleiro, de outro componente neuro-motor, que
é o reflexo.
Esta
situação, que foi e ainda é, criada e
alimentada principalmente pelos meios de comunicação,
ao salientarem as ações rápidas do goleiro
frente ao chutes dos adversários, como sendo
“defesa no reflexo”, está muito presente no
nosso dia-a-dia.
Através
deste trabalho procuraremos elucidar possíveis dúvidas
sobre o assunto, buscando identificar os conceitos
de tempo de reação e reflexo, para uma melhor
compreensão dos gestos defensivos do goleiro de
futsal.
REFLEXOS
Basicamente,
a diferença existente entre reflexo e tempo de
reação diz respeito ao ponto de integração
destes movimentos no complexo sistema de controle
motor do movimento humano. Enquanto o tempo de reação
é uma ação consciente, surgindo com a percepção
de um estímulo pelo SNC, a integração do
movimento reflexo ocorre no nível da medula
espinhal. MAGGIL (1984) em relação a estes
movimentos classifica-os em movimentos reflexos e
movimentos voluntários. Para ele os “movimentos
reflexos envolvem tanto a transmissão sensorial
da informação dos receptores apropriados, quanto
a transmissão eferente da informação para a
musculatura apropriada.
Mas
a fase de integração deste sistema é muito
diferente dos movimentos voluntários mais
complexos”(p.142). O autor aponta as diferenças
existentes entre os dois movimentos. Segundo ele a
diferença está no local em que ocorre a integração,
pois ”para movimentos reflexos simples, a
integração da informação sensorial motora
ocorre no nível da medula espinhal. A fibra
nervosa aferente transmite o impulso a medula
espinhal, onde a fibra forma sinapse com um neurônio
motor alfa, que leva o impulso eferente ao músculo
esquelético apropriado”.(p.142).
Nos
movimentos voluntários, MAGILL salienta que a
integração da informação sensorial ocorre no cérebro,
“sendo os principais locais de integração o córtex,
os gânglios cerebrospinais, o tálamo e o
cerebelo”.(p.142). O ponto de integração do
estímulo no movimento reflexo, também é
abordado por WEINECK (1991), como sendo a diferença
entre os dois tipos movimentos. Afirma ele que “
enquanto os desempenhos motores mais complexos, ou
mais ‘altos’, estão ligados às estruturas
superiores do cérebro, as correções simples de
atividade muscular podem ocorrer a nível de
medula”.(p.53). A esta atividade desenvolvida no
aspecto medular, ele chama de reflexo.
Com
opinião semelhante, encontramos as idéias de
BRANDÃO (1991) para quem as atividades
esportivas, complexas pela sua natureza “ tem no
córtex motor sua estação final, que conecta e dá
continuidade ao processo iniciado em áreas
sensoriais e de associação do córtex
cerebral”. (p.27). O autor considera que os
reflexos “ se originam nos receptores
sensoriais, que penetram na medula espinhal pelo
seu corno dorsal.
Na
mesma linha de afirmação, BARBANTI (1994)
considera o reflexo uma reação inata e específica,
salientando que ele não pode ser treinado. O
autor afirma que reflexo é uma “ reação
involuntária, súbita, muito simples, em que não
existe qualquer elemento de escolha ou premeditação”
(p.252).Com a mesma linha de raciocínio SCHMIDT
(1979) define como reflexo as reações
estereotipadas que o corpo apresenta frente a
determinados estímulo, considerando a sua
involuntariedade.
A
característica do reflexo de ser um movimento
totalmente involuntário também é destacado por
ESBÉRARD (1980), onde o autor afirma que “as
respostas produzidas por estímulos específicos,
que se realizam independe de qualquer controle e
que tem características semelhantes em vários
grupos animais e total identidade na mesma espécie,
não importando a idade, é dado o nome de ato
reflexo ou simplesmente reflexo”.(p.223).
O
reflexo depende da via neural específica, e está
relacionado com o ponto de inserção do estímulo
da medula espinhal. As respostas reflexas não
melhoram pela repetição. Esta situação deixa
claro que o reflexo não pode ser treinado, o que
impossibilita a sua aplicação situações técnicas
do goleiro, como no caso das defesas dos arremates
dos adversários.
TEMPO
DE REAÇÃO
Como
já vimos muitas são as qualidades, tanto físicas
como técnicas e até mesmo psicológicas necessárias
para um bom goleiro de futsal. Uma destas
qualidades básicas, diz respeito a capacidade de
reação, que deve ser a mais rápida possível,
através da realização de movimentos técnicos
de defesa, frente as ações ofensivas dos adversários,
normalmente arremates ao gol em forma de chutes e
cabeceios. É primordial que o goleiro responda
rapidamente e conscientemente a este estímulo,
estando a sua produtividade diretamente
relacionada com esta capacidade. Para obter este
intento, um bom tempo de reação é necessário.
Por
tempo de reação BARBANTI (1994) considera “ o
tempo que ocorre entre a saída do sinal de estímulo
e a execução da resposta apropriada ao estímulo”.(p.276)
Com uma opinião semelhante, SANTOS (1993) diz que
“ tempo de reação é o intervalo de tempo
entre a apresentação do estímulo ou sinal até
o início da resposta”.(p.27) .Entretanto, neste
conceito, a autora define o final da reação como
sendo o início da resposta. Ela chama de Tempo de
Resposta o espaço entre o estímulo e a execução
final do gesto motor.
Utilizando
inicialmente o termo Velocidade de Reação, surge
o conceito de VIANA (1995) para quem “
velocidade de reação é o tempo mínimo necessário
para ser dar uma resposta motora a um estímulo
sensitivo”. A definição da terminologia para
esta situação, não é questão fechada para o
autor, já que ele mesmo diz que “ alguns
autores denominam velocidade de reação,
capacidade de reação ou tempo de reação”,
entretanto isto não é o mais importante. SOARES
(1989) também considera o tempo de reação como
sendo o intervalo de tempo entre o estímulo e o
início da resposta motora. O autor inclui também
a execução do movimento, dentro do que ele chama
de Tempo de Movimento.
A
AÇÃO DEFENSIVA DO GOLEIRO DE FUTSAL
Ao
analisarmos os conceitos apresentados de reflexo e
tempo de reação, podemos afirmar que o ato
reflexo não faz parte da ação defensiva do
goleiro de futsal.
No
futsal a defesa do goleiro parte da percepção de
um estímulo apresentado pelo meio e captado pelo
goleiro. Este estímulo é normalmente
transformado na ação de chute ao gol por um
jogador adversário.
Após
perceber o estímulo o goleiro irá decidir qual a
melhor ação a ser tomada, através do mecanismo
decisório que tem como função selecionar e
integrar os comandos motores que deverão realizar
o movimento de defesa da bola. Num ato reflexo não
há este caminho, pois ele ocorre em níveis
inferiores do SNC. Além disto, a reação do
goleiro é um movimento voluntário, pois os
mecanismos de processamento de informações da ação
do goleiro estão interligados, através de um
fluxo de informações, o que segundo FONSECA
(1998) faz com que um determinado mecanismo fique
dependente das informações fornecidas pelo seu
antecessor, ou seja, a decisão irá depender
obrigatoriamente da percepção.
Toda
esta situação tem no córtex motor seu estágio
de realização, o que demonstra como afirma BRANDÃO
(1991) a necessidade de participação do córtex
motor nas atividades motoras complexas, como é o
caso das esportivas.
Acreditamos
que usar o termo adequado ao real conceito do ato
motor apresentado pelo goleiro é importante para
uma melhor compreensão do próprio jogo. O uso de
conceito inadequados muitas vezes resultam em
problemas de compreensão de significado. Com o
presente trabalho esperamos ter colaborado para
transferir informações que esclareçam cada vez
mais a complexidade e importância do movimento
humano, nas suas mais diversas formas de manifestação.
BIBLIOGRAFIA
MAGILL,
Richard. Aprendizagem Motora : Conceitos e aplicações.
2ª edição. Ed. Edgard Blücher. 1984. São
Paulo.
BRANDÃO,
Marcus. As bases psicofisiológicas do
comportamento. 1ª edição. Ed. Pedagógica
Universitária. 1991. São Paulo.
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Robert. Neurofisiologia. 1ª edição. Ed. Pedagógica
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Charles. Neurofisiologia. 1ª edição. Ed.
Campus. 1980. Rio de Janeiro.
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edição. Ed. Guanabara Koogan. 1977. Rio de
Janeiro.
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edição. Ed. Sprint. 1998. Rio de Janeiro.
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Jürgen. Biologia do Esporte. 1ª edição. 1991.
Ed. Manole. São Paulo.
SOARES,
Jesus. Dissertação de Mestrado- Estudo do
Desempenho em Tempo de Reação e Tempo de
Movimento em Atletas Veteranos e Indivíduos Não
Praticantes de Esportes. USP. 1989. São Paulo.
BARBANTI,
Valdir. Dicionário de Educação Física e do
Esporte. 1ª edição. Ed. Manole. 1994. São
Paulo.
VIANA,
Adalberto. Treinamento do Goleiro de Futebol. 1ª
edição. Imprensa Universitária. 1995. Viçosa.
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